e hoje sou eu

vou ser energia e devolver-me o brilho. vou ser eu em mim e viver os meus medos sem medos, os meus assombrosos modos de ser o que não sou vão abrir alas à minha pessoa, fazer-lhe vénias daquelas que se fazem a uma dama e cumprimentá-la com brilhos de luzes violeta. Vou ser tudo o que escondi de mim, de ti, dele e dela. vou ser orquídea, rosa branca, malmequer e margarida, cheia de cheiros de amor. vou ser paz. comecei o meu caminho agora e até agora nada mais fiz do que o caminho para começar o caminho. e hoje é Natal e hoje sou eu com paz no coração

Hey, i don't love you anymore

Estranho como hoje me sinto desligada de ti e dos nossos segredos.
Hoje poderia ser arrebatada para a pista, dançar Billy Idol, pular Rolling Stones, rodopiar Brian Ferry ou o hoochy coo, sem que me lembrasse de ti uma única, uma única vez... ou sem (como antes) que a culpa me vestisse a pele.
Estranho como todos os actos libertadores que fui procurando envidar se transformaram no derradeiro acto desta peça teatral das nossas vidas desmedidas e pouco (tão pouco) destemidas.
Neste momento, neste preciso e exacto momento, já não te tenho comigo. Sobra-me apenas a duvida... agora que me desprendi de ti, o que mais tenho para dizer?
Que faço à angústia e aos anos que roubei ao tempo? O sofá dos pensamentos... será o mesmo? continuarei a chorar nos filmes a preto e branco? Saberei viver sem a tua sombra irrequieta pousada em tudo o que faço?

Porque SIM

VEJO o amor e a solidão como duas constantes da mesma realidade,
SEI que nas minhas rugas está, também, um bocado de ti.
ACREDITEI que, nas rotinas dos amores e recadinhos no espelho da casa de banho, encontraria o alento para por fim baloiçar-me no descanso dos que amam. SEI das repetições repetidas dos meus erros. GOSTO da vida que há na terra molhada e no cheiro a madeira queimada. SEI o que as minhas mãos me dizem quando te tocam e SINTO o que as tuas mãos me dizem quando me medem, SEI de todas as vezes que os beijos me afloraram à boca no desejo contido de ti e das mil pestanas dos teus olhos. SEI que a felicidade é voyeur, que não bate à porta mas que nos espreita de quando em vez. Acredito na oração dos sozinhos, nos peregrinos (em ti, meu menino), no que me dizem os bêbedos e no que digo quando o álcool me desata a fala. Acima de tudo, CREIO no que NÃO te digo.
Se atentasses nos meus silêncios NÃO mais precisaria de falar.

até me largar o ódio

universo invertido na aspiral dos medos e alucinações. alucino verdes, vermelhos, cinzas negros e nebulados. alucino submersa em lodo, golfadas irrespiráveis. pesam-me os membros no debater esforçado pela saída. Esforço inglório este o de não amar. fecho os olhos e sinto-te em presença em mim, dou-te as costas e as minhas mãos procuram a parede fria e desmaiada. o suor escorre-me no pescoço, o teu mistura-se nos meus ombros. ausência absoluta de palavras, respirares pesados, sofridos, amarrados e desatados. um no outro, em nós de pernas. um no outro sem estarmos. dois corpos despojados e ressentidos um do outro. e dou-te as costas, uma e outra vez, até me largar o ódio.

Perífrase

Vou explicar o que é isto que me faz ir e voltar, ter ganas e perder o apetite, querer e não querer, viver, quando quero morrer, sorrir, quando me apetece largar o pranto, falar, quando não me apraz calar o silêncio, dar tempo, quando me resta pouco do que me foi roubado, insistir quando o meu corpo já desistiu, somar, quando só me sinto a subtrair.
Vou explicar porque é que te viro as costas quando, verdadeiramente, me sinto em extase na imagem de mim entrelaçada em ti.
Vou explicar o porquê das horas que passo a soprar-te o pescoço e a enrolar os dedos no teu cabelo. vou explicar por que te sigo e te deixo para trás.
Vou explicar as minhas antíteses, metáforas, aliterações, quiasmos e pleonasmos.
Vou explicar por que sou intensa e o que sou.
Vou explicar por que, no manto do que sou, não há discussões sem gestos bruscos, discordãncias sem alterações de voz.
Vou explicar por que me abstraí quando o fim me interpelou e, em surdina, vaticinou que não mais apostasse.
Vou explicar por que me escangalhei em farrapos e trapos para que me ajudasses a recompor.
Vou explicar-te por que te quero dentro e fora de mim, nos extremos dos desejos opostos.
Vou explicar-te por que sou paradoxal, irónica, neurótica e exaustiva nos sentimentos.
.....................Um dia vou explicar.

Antes de ti

Antes de ti vivia cheia de gargalhadas.
Contava os meus segredos e via-me livre deles, não tinha complexos, a vida era isso.

Antes de ti vivia cheia de adjectivos e figuras de estilo, migrava e emigrava para onde me desse na real gana, num ver se te avias de rodopio de excessos.

Era Afrodite e Héstia, numa só, era eu e o meu avesso, como se a pele se vestisse dos dois lados, sem costuras, sinais, verrugas, rugas ou nódoas negras.

Era, na vida, general e alferes, patroa e empregada, cão e gato, gato e rato, recluso e guarda, complexa e simples, livre e presa.
Não tinha esconderijos, comia sopa da guiné, quiabos, fuba, andava pelos bares de esquina, pelos bares da moda, pelas tascas de balcão de alumínio, comia a parte de cima dos cachorros e deitava fora a salcicha, jogava no bingo e dormia sem insónias.

Trago-te agora dentro do que sou, percebes então porque já não sou nada disto?

Roubaste-me as chacras e os pontos de equilíbrio, os astros e os orixás.

Vanilla Sky

Duas horas voaram entre o sopro deste fim de tarde bafiento e pesado de nuvens.
Duas horas que terminaram com o vento a soprar mais fresco no pescoço.
De volta.
Tanta coisa em suspenso, a aguardar indolentemente um sinal da minha parte, um sinal de vida, de regresso às lides, à roupa por passar, à cama por fazer, aos três pratos com migalhas em cima da banca...
Oxalá não fosse Domingo para amanhã não começar tudo outra vez.

living old stories far behind

Viver assim, na efémera existência de nós. Viver assim, na água que verte para o ralo, no sol que se esconde entre as nuvens. E tu dizias-me, não entendes? Nunca entendes, um dia vais arrepender-te... mas não, não me arrependi ainda. No final de contas, sempre foste uma imagem fugidia de ti, esguia nos confrontos, indolente nas maneiras e actos, frio nas escolhas, gélido na crítica. E aquelas tantas noites em que virávamos as costas um ao outro enquanto adormecíamos nas nossas discussões, aquelas tantas noites eram o inferno, uma casa húmida, sem lareira, entre os escombros do que um dia fomos. E escrevia-te o que se tornara impossível fazer-te ouvir, e tentava, em vão, que visses que não preciso de tanto para estar em paz. E antecipava os teus comentários, e antecipava os teus esgares de discordância... dizia-te não entendes, nunca entenderás.
Tenho os teus bilhetes mentirosos. A tua escrita nos recantos dos meus esconderijos. E quanto mais penso em ti, mais me esqueço... como se não existisses, como se tivesse alucinado os últimos anos.
Apetecia-me escangalhar-te o coração para perceberes o meu. Não agora, antes. Agora já não te consigo ouvir,  minha alucinação demorada.

Contrários

Há uma magia quase delirante no fim das coisas.
Há uma espécie de gosto doce, que não o chega a ser, mas que deixa o travo.
No fim das coisas percebo o seu início, o seu contexto, o que levou a, o que não pôde ser, o que é. E no fim, já tudo é pouco, já tudo é just a memory of you, nada mais que uma memória de páginas amarelecidas pelo tempo que nos esgotou e desgastou.
E já não te consigo ouvir, já não tenho pachorra para os infindáveis tempos.
O contrário da mentira, não é a verdade. O contrário do preto, não é o branco.
Contrários somos nós, em todos os dias da nossa vida, em todos os silêncios, em todas as discussões, até nos breves tempos em que nos encontrámos.
Tu és sempre tu, inesgotável na argumentação de vão de escada, básica e vazia de conteúdo.
Tu és tu, inseparável dos teus paradigmas tortos.
Tu és tu, viciado em ti, sempre em ti e exclusivamente em ti.
E há uma magia delirante no fim de nós,
no acto libertador de um telefone a voar do sétimo andar, do último grito, do último detesto-te.
E deixo-te a vociferar as eternas palermices dos "desagarrados" que, como tu, sabem lá!
Presunção? Talvez.. água benta, cada um toma a que quer... venha 1 litro e brindemos com aquilo a que chamas presunção, brindemos ao dia em que o erro de existires te entre olhos adentro. Brindemos à magia de não mais querer deixar de ver que isto não é, não foi, nem nunca será.
tchim-tchim!

24h50

às vezes a música não consegue fazer com que deixe de me ouvir no eterno ribombar dos meus pensamentos tristes. às vezes as cerejas não me sabem bem e, às vezes, o preto faz o meu estilo. é nesse momento, entre uma vez e outra, que fico alerta, o sol magoa-me os olhos míopes e as palavras do livro ao colo diluem-se para deixarem de fazer sentido. e fico ali, sentada a ouvir o som dos pés no chão, o som da vida a angustiar-me a existência. e quero levantar-me, começar a pular, a correr nos patins (aqueles onde ainda não me equilibrei uma única vez), e ser Tom Sawyer. Queria voltar atrás, ao ponto em que sei que tudo mudou. e queria estar lá, nesse dia, àquela hora, naquele sítio e virar as costas "não vai dar, não gosto da tua cara, sabias?". e a partir daí entrar no sonho que sonho tantas vezes e fazer dele a realidade que não é, que não foi e que talvez nunca ganhe forças para ser. e se o meu sonho se confundir com a minha vida, saberei percebe-lo? no meu sonho a melhor parte de mim és tu, na minha vida não.
no meu sonho há sempre uma flor no meu cabelo e há sempre a ingenuidade de quem ama e não conhece. esta distância que em breve acontecerá .... fará ela alguma diferença? estarei a fugir? se sim, ainda bem. não tenho vergonha de o admitir.

e cá estou eu, 24h50...

simples


Se fosse assim simples, todos nós seríamos felizes. Se fosse assim simples, tudo não seria mais do que um dia. Se fosse claro, o escuro não teria por que existir. As vozes esquizofrenóides que oiço no coração são fruto de mim, de ti? O que é isto dos socos constantes no estômago? homenzinhos miniatura de contos de fadas para adultos?

Saio e vejo um pedaço de mundo nas vozes alteradas pelo alcóol, nos copos erguidos, no vinho que bebi e que me desatou a fala para quem estava ao lado, nenhum amigo, calhou estar ali, de orelhas entre a cabeça, a ouvir ou com ar de quem o fazia. E falei, e perguntei sem respostas. Acordei no quarto escuro, cheiro a baunilha.... suspiro, olhos no tecto. Sã e salva.

Pelo menos uma...


quero reconciliar-me comigo mesma, não percebes?

até agora tenho sido o reflexo de nós.

esqueci-me de mim...

Excepto uma vez

quando me lembrei

Cobraste-me durante dois anos o que, para ti, não podia ser se não um devaneio!
quero ser o que era

orgulhar-me do que sempre fui.

livre.

Dá-me isso.

solta-me os nós do estômago, acaba com os meus monólogos tristes sobre nós.

Promete que o fazes?

Apaga os rastos dos meus erros.

o toque das minhas mãos na tua cara.

Apaga tudo, por que eu não sou o que conheceste. não sou o eu nem o outro...

apaga-me, apaga-me, apaga-me

grito-te um sem número de vezes

ouve-me.....

pelo menos uma!

miss mal contente



Saber que a entrega é para poucos ou quase nenhuns, ver que o tempo é larápio de metro e me rouba o descernimento, sentir que cheguei aqui, ao dia de hoje, como uma retornada de lugar nenhum, que trago comigo pouco mais de uma réstia do que fui. Abrir a porta de casa, ver tudo como deixei, ninguém tocou, ninguém mexeu ou mudou de lugar. Tudo como deixei... a desarrumação arrumada que vou tentando imprimir a tudo para lhe dar algum aspecto de vida, a cor que tento pugnar por vestir para que se confunda com o meu cinzento para que os desatentos de mim continuem a ver o que fui e não o que me tornei. Abraçada a uma angústia que gostaria de "desabraçar" de vez. E a música ... "the spring is turning your face to mine".... e os tons que serpenteiam os ritmos dos meus pulsos, do mais fundo do que sou.... "can you help me?"

Não fales


não fales

queria que me guardasses sem mágoas.

queria que visses o meu lado bom e só esse.

queria que me levasses nos teus beijos, na tua boca, para onde quer que o vento te levasse, como uma fina poeira de nós.

Queria guardar de ti os silêncios, os momentos em que lemos o jornal ao sol, os momentos em que me perguntavas

"diz-me o que te prende a esse livro, tenho ciúmes"


guardar a tua ternura enroscada no meu corpo à noite

"aperta-me com força para eu saber que gostas de mim"

guardar o ar com que te alimentas, com sacríficio, sem prazer.

"achas que comi bem?"

guardar os remoinhos do teu cabelo pela manhã e os pijamas ... sempre maiores do que dois de ti.

já esgotámos as palavras, fiquemos em silêncio. Em silêncio, amo-te.

Não fales.

saudade= a word that does not exist in English...

Estava naquele estado sonâmbulo e preguiçoso que me toma por todo quando o sol sai à rua, estava a viver uma história, que era a do livro do momento, quando me apareceste.

De vez em quando apareces-me assim, do vazio. Sorri-te com tristeza. Devolveste.

Pousaste um beijo e sentaste-te sem pedir licença, como sempre fazes, aíás.

Ficaste, foste ficando. Inquietei-me, queria voltar ao estado de letargia em que estava antes de chegares, à doce preguiça de estar numa história, a do livro, mais interessante do que a minha, que não tem páginas, apenas algumas, mas curtas, memórias.

O sol doirava-te a presença e tu falavas e eu não te ouvia.

Não te quero ouvir. 

A a cacofonia do costume, a algazarra de gritos e de ansias que tenho, a custo, confesso, tentado arrumar num canto perdido qualquer.

Mas lá estavas tu, cada vez mais presente, com o sol a doirar-te, a abrir-te o caminho.

E apeteceu-me esmagar-te, escangalhar-te, mostrar que não te quero na minha vida, não a ti, estúpida saudade.

Detesto-te.

Depois disto....


- Quanto tempo têm as nossas, menino?
- O necessário para seres feliz.
- Tu e a esperança...
- Eu e a vontade. Enganemos as linhas da tua mão, as cartas de Tarot, os pronúncios da tua amiga cigana e o diagnóstico do médico.
- Posso morrer antes de o ser, não é?
- É. Se tens tantas dúvidas.
- Irritas-me, sabias?
- Já mo disseste.
- Achas que ainda tenho hipóteses?
- De?
- De ser feliz.
- Pensei que querias mudar de assunto...
- Nos meus devaneios tu vais comigo, menino.... vais comigo. As asas não nos assentam bem e nós nunca fomos anjos...

De espreitadela em espreitadela...




... Veio o sol ... e o cheiro a sabão das roupas no estendal desata-me o riso.

Vi-te




Andei pela cidade e vi as luzes da ponte que não se encontra, vi os vultos dos que se enganaram algures no caminho e que ficaram sós, que deambulam junto com as suas próprias sombras.


Vi os dois polícias do costume junto ao Largo da Portagem, os taxistas em cavaqueira junto da Estação, o Mondego a ondular baixinho, as caras pensativas dos condutores que pararam ao meu lado, ouvi sirenes, vi o preto da bomba de gasolina que parece nunca dali sair, vi o Parque da Cidade onde tantas Queimas vivi, um Parque cheio de folhas, um tapete de gente que ali passou.


Vi-te, mas não me viste.


Ias de olhos no chão, nos teus passinhos pequenos, na tua eterna meditação, como se te coubesse salvar o mundo, vi-te as barbas brancas e o fato coçado, o saco de plástico que sempre carregas contigo como se a tua vida inteira ali coubesse. Vejo-te sempre como se fosses Deus, apareces-me e ele não. E também tu tens as retratadas barbas brancas, os retratados cabelos longos e desgrenhados. Serás Ele?


Não deves ser, caso contrário eu saberia.


Todos saberíamos.


Disseram-me que havias sido professor, um dia, há muito tempo atrás... o que te terá desiludido, por que dizem eles que és louco?


Serás?


Ou seremos nós?


A verdade é que, de cada vez que te vejo, o meu mundo aquece, é como se tudo entrasse no seu devido lugar.


Afinal, tu ainda aí estás e se tu ainda aí estás, então eu também.


Cheguei a casa e abri a janela para não deixar de sentir que continuava ligada ao frio da tua imagem.


último cigarro do dia.


Eu, TU, as luzes e Coimbra aos pés.




Juro-te


Fui entrando devagar na quase certeza de que tudo não havia passado de imaginação minha.


E hoje chove e até podia encontrar milhares de razões para rir num dia de chuva, mas não encontro nenhuma.


Estou, mais uma vez, na entrada dos meus medos, mais uma vez tentada a permanecer no seguro, no que já conheço, evitar as surpresas daquelas almas que vão cruzando o meu caminho de todas as perspectivas e ângulos.


Afinal de contas é árduo começar uma coisa nova, aferir dos gestos, dos tiques, dos gostos, dos não gostos, dos cheiros.... relações empiricas.


Hoje sento-me sozinha a olhar para a paisagem da minha janela, uma paisagem vazia que, tal como eu, baloiça ao vento.


Chove mas passou o frio e, com ele, os arrepios. Cheira a terra, cheira a tristeza, cheira mim...





Sei que não vou sair derrotada e ainda me vais ver brilhar, naquele vestido branco, com aquela flor no cabelo... juro-te.



Fazes-me falta

















Os teus dedos - poderão estar enroscados no vento, os teus dedos que já não existem? quando tu existias, o vento era apenas o vento. Cada coisa tinha uma forma exacta e uma história de duração. Perdi a dureza que me fazia durar quando te perdi - ou melhor, quando desapareceste e eu me perdi em ti. Troçava de Deus apesar de tudo exacto, gordo, barbudo, em que tu te aninhavas, e agora acredito que a carícia dos teus dedos está no vento (...)


In Fazes-me Falta, Inês Pedrosa

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