saudade= a word that does not exist in English...

Estava naquele estado sonâmbulo e preguiçoso que me toma por todo quando o sol sai à rua, estava a viver uma história, que era a do livro do momento, quando me apareceste.

De vez em quando apareces-me assim, do vazio. Sorri-te com tristeza. Devolveste.

Pousaste um beijo e sentaste-te sem pedir licença, como sempre fazes, aíás.

Ficaste, foste ficando. Inquietei-me, queria voltar ao estado de letargia em que estava antes de chegares, à doce preguiça de estar numa história, a do livro, mais interessante do que a minha, que não tem páginas, apenas algumas, mas curtas, memórias.

O sol doirava-te a presença e tu falavas e eu não te ouvia.

Não te quero ouvir. 

A a cacofonia do costume, a algazarra de gritos e de ansias que tenho, a custo, confesso, tentado arrumar num canto perdido qualquer.

Mas lá estavas tu, cada vez mais presente, com o sol a doirar-te, a abrir-te o caminho.

E apeteceu-me esmagar-te, escangalhar-te, mostrar que não te quero na minha vida, não a ti, estúpida saudade.

Detesto-te.

Depois disto....


- Quanto tempo têm as nossas, menino?
- O necessário para seres feliz.
- Tu e a esperança...
- Eu e a vontade. Enganemos as linhas da tua mão, as cartas de Tarot, os pronúncios da tua amiga cigana e o diagnóstico do médico.
- Posso morrer antes de o ser, não é?
- É. Se tens tantas dúvidas.
- Irritas-me, sabias?
- Já mo disseste.
- Achas que ainda tenho hipóteses?
- De?
- De ser feliz.
- Pensei que querias mudar de assunto...
- Nos meus devaneios tu vais comigo, menino.... vais comigo. As asas não nos assentam bem e nós nunca fomos anjos...

De espreitadela em espreitadela...




... Veio o sol ... e o cheiro a sabão das roupas no estendal desata-me o riso.

Vi-te




Andei pela cidade e vi as luzes da ponte que não se encontra, vi os vultos dos que se enganaram algures no caminho e que ficaram sós, que deambulam junto com as suas próprias sombras.


Vi os dois polícias do costume junto ao Largo da Portagem, os taxistas em cavaqueira junto da Estação, o Mondego a ondular baixinho, as caras pensativas dos condutores que pararam ao meu lado, ouvi sirenes, vi o preto da bomba de gasolina que parece nunca dali sair, vi o Parque da Cidade onde tantas Queimas vivi, um Parque cheio de folhas, um tapete de gente que ali passou.


Vi-te, mas não me viste.


Ias de olhos no chão, nos teus passinhos pequenos, na tua eterna meditação, como se te coubesse salvar o mundo, vi-te as barbas brancas e o fato coçado, o saco de plástico que sempre carregas contigo como se a tua vida inteira ali coubesse. Vejo-te sempre como se fosses Deus, apareces-me e ele não. E também tu tens as retratadas barbas brancas, os retratados cabelos longos e desgrenhados. Serás Ele?


Não deves ser, caso contrário eu saberia.


Todos saberíamos.


Disseram-me que havias sido professor, um dia, há muito tempo atrás... o que te terá desiludido, por que dizem eles que és louco?


Serás?


Ou seremos nós?


A verdade é que, de cada vez que te vejo, o meu mundo aquece, é como se tudo entrasse no seu devido lugar.


Afinal, tu ainda aí estás e se tu ainda aí estás, então eu também.


Cheguei a casa e abri a janela para não deixar de sentir que continuava ligada ao frio da tua imagem.


último cigarro do dia.


Eu, TU, as luzes e Coimbra aos pés.




Juro-te


Fui entrando devagar na quase certeza de que tudo não havia passado de imaginação minha.


E hoje chove e até podia encontrar milhares de razões para rir num dia de chuva, mas não encontro nenhuma.


Estou, mais uma vez, na entrada dos meus medos, mais uma vez tentada a permanecer no seguro, no que já conheço, evitar as surpresas daquelas almas que vão cruzando o meu caminho de todas as perspectivas e ângulos.


Afinal de contas é árduo começar uma coisa nova, aferir dos gestos, dos tiques, dos gostos, dos não gostos, dos cheiros.... relações empiricas.


Hoje sento-me sozinha a olhar para a paisagem da minha janela, uma paisagem vazia que, tal como eu, baloiça ao vento.


Chove mas passou o frio e, com ele, os arrepios. Cheira a terra, cheira a tristeza, cheira mim...





Sei que não vou sair derrotada e ainda me vais ver brilhar, naquele vestido branco, com aquela flor no cabelo... juro-te.



AddThis