Perífrase

Vou explicar o que é isto que me faz ir e voltar, ter ganas e perder o apetite, querer e não querer, viver, quando quero morrer, sorrir, quando me apetece largar o pranto, falar, quando não me apraz calar o silêncio, dar tempo, quando me resta pouco do que me foi roubado, insistir quando o meu corpo já desistiu, somar, quando só me sinto a subtrair.
Vou explicar porque é que te viro as costas quando, verdadeiramente, me sinto em extase na imagem de mim entrelaçada em ti.
Vou explicar o porquê das horas que passo a soprar-te o pescoço e a enrolar os dedos no teu cabelo. vou explicar por que te sigo e te deixo para trás.
Vou explicar as minhas antíteses, metáforas, aliterações, quiasmos e pleonasmos.
Vou explicar por que sou intensa e o que sou.
Vou explicar por que, no manto do que sou, não há discussões sem gestos bruscos, discordãncias sem alterações de voz.
Vou explicar por que me abstraí quando o fim me interpelou e, em surdina, vaticinou que não mais apostasse.
Vou explicar por que me escangalhei em farrapos e trapos para que me ajudasses a recompor.
Vou explicar-te por que te quero dentro e fora de mim, nos extremos dos desejos opostos.
Vou explicar-te por que sou paradoxal, irónica, neurótica e exaustiva nos sentimentos.
.....................Um dia vou explicar.

Antes de ti

Antes de ti vivia cheia de gargalhadas.
Contava os meus segredos e via-me livre deles, não tinha complexos, a vida era isso.

Antes de ti vivia cheia de adjectivos e figuras de estilo, migrava e emigrava para onde me desse na real gana, num ver se te avias de rodopio de excessos.

Era Afrodite e Héstia, numa só, era eu e o meu avesso, como se a pele se vestisse dos dois lados, sem costuras, sinais, verrugas, rugas ou nódoas negras.

Era, na vida, general e alferes, patroa e empregada, cão e gato, gato e rato, recluso e guarda, complexa e simples, livre e presa.
Não tinha esconderijos, comia sopa da guiné, quiabos, fuba, andava pelos bares de esquina, pelos bares da moda, pelas tascas de balcão de alumínio, comia a parte de cima dos cachorros e deitava fora a salcicha, jogava no bingo e dormia sem insónias.

Trago-te agora dentro do que sou, percebes então porque já não sou nada disto?

Roubaste-me as chacras e os pontos de equilíbrio, os astros e os orixás.

Vanilla Sky

Duas horas voaram entre o sopro deste fim de tarde bafiento e pesado de nuvens.
Duas horas que terminaram com o vento a soprar mais fresco no pescoço.
De volta.
Tanta coisa em suspenso, a aguardar indolentemente um sinal da minha parte, um sinal de vida, de regresso às lides, à roupa por passar, à cama por fazer, aos três pratos com migalhas em cima da banca...
Oxalá não fosse Domingo para amanhã não começar tudo outra vez.

living old stories far behind

Viver assim, na efémera existência de nós. Viver assim, na água que verte para o ralo, no sol que se esconde entre as nuvens. E tu dizias-me, não entendes? Nunca entendes, um dia vais arrepender-te... mas não, não me arrependi ainda. No final de contas, sempre foste uma imagem fugidia de ti, esguia nos confrontos, indolente nas maneiras e actos, frio nas escolhas, gélido na crítica. E aquelas tantas noites em que virávamos as costas um ao outro enquanto adormecíamos nas nossas discussões, aquelas tantas noites eram o inferno, uma casa húmida, sem lareira, entre os escombros do que um dia fomos. E escrevia-te o que se tornara impossível fazer-te ouvir, e tentava, em vão, que visses que não preciso de tanto para estar em paz. E antecipava os teus comentários, e antecipava os teus esgares de discordância... dizia-te não entendes, nunca entenderás.
Tenho os teus bilhetes mentirosos. A tua escrita nos recantos dos meus esconderijos. E quanto mais penso em ti, mais me esqueço... como se não existisses, como se tivesse alucinado os últimos anos.
Apetecia-me escangalhar-te o coração para perceberes o meu. Não agora, antes. Agora já não te consigo ouvir,  minha alucinação demorada.

Contrários

Há uma magia quase delirante no fim das coisas.
Há uma espécie de gosto doce, que não o chega a ser, mas que deixa o travo.
No fim das coisas percebo o seu início, o seu contexto, o que levou a, o que não pôde ser, o que é. E no fim, já tudo é pouco, já tudo é just a memory of you, nada mais que uma memória de páginas amarelecidas pelo tempo que nos esgotou e desgastou.
E já não te consigo ouvir, já não tenho pachorra para os infindáveis tempos.
O contrário da mentira, não é a verdade. O contrário do preto, não é o branco.
Contrários somos nós, em todos os dias da nossa vida, em todos os silêncios, em todas as discussões, até nos breves tempos em que nos encontrámos.
Tu és sempre tu, inesgotável na argumentação de vão de escada, básica e vazia de conteúdo.
Tu és tu, inseparável dos teus paradigmas tortos.
Tu és tu, viciado em ti, sempre em ti e exclusivamente em ti.
E há uma magia delirante no fim de nós,
no acto libertador de um telefone a voar do sétimo andar, do último grito, do último detesto-te.
E deixo-te a vociferar as eternas palermices dos "desagarrados" que, como tu, sabem lá!
Presunção? Talvez.. água benta, cada um toma a que quer... venha 1 litro e brindemos com aquilo a que chamas presunção, brindemos ao dia em que o erro de existires te entre olhos adentro. Brindemos à magia de não mais querer deixar de ver que isto não é, não foi, nem nunca será.
tchim-tchim!

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