Hey, i don't love you anymore

Estranho como hoje me sinto desligada de ti e dos nossos segredos.
Hoje poderia ser arrebatada para a pista, dançar Billy Idol, pular Rolling Stones, rodopiar Brian Ferry ou o hoochy coo, sem que me lembrasse de ti uma única, uma única vez... ou sem (como antes) que a culpa me vestisse a pele.
Estranho como todos os actos libertadores que fui procurando envidar se transformaram no derradeiro acto desta peça teatral das nossas vidas desmedidas e pouco (tão pouco) destemidas.
Neste momento, neste preciso e exacto momento, já não te tenho comigo. Sobra-me apenas a duvida... agora que me desprendi de ti, o que mais tenho para dizer?
Que faço à angústia e aos anos que roubei ao tempo? O sofá dos pensamentos... será o mesmo? continuarei a chorar nos filmes a preto e branco? Saberei viver sem a tua sombra irrequieta pousada em tudo o que faço?

Porque SIM

VEJO o amor e a solidão como duas constantes da mesma realidade,
SEI que nas minhas rugas está, também, um bocado de ti.
ACREDITEI que, nas rotinas dos amores e recadinhos no espelho da casa de banho, encontraria o alento para por fim baloiçar-me no descanso dos que amam. SEI das repetições repetidas dos meus erros. GOSTO da vida que há na terra molhada e no cheiro a madeira queimada. SEI o que as minhas mãos me dizem quando te tocam e SINTO o que as tuas mãos me dizem quando me medem, SEI de todas as vezes que os beijos me afloraram à boca no desejo contido de ti e das mil pestanas dos teus olhos. SEI que a felicidade é voyeur, que não bate à porta mas que nos espreita de quando em vez. Acredito na oração dos sozinhos, nos peregrinos (em ti, meu menino), no que me dizem os bêbedos e no que digo quando o álcool me desata a fala. Acima de tudo, CREIO no que NÃO te digo.
Se atentasses nos meus silêncios NÃO mais precisaria de falar.

até me largar o ódio

universo invertido na aspiral dos medos e alucinações. alucino verdes, vermelhos, cinzas negros e nebulados. alucino submersa em lodo, golfadas irrespiráveis. pesam-me os membros no debater esforçado pela saída. Esforço inglório este o de não amar. fecho os olhos e sinto-te em presença em mim, dou-te as costas e as minhas mãos procuram a parede fria e desmaiada. o suor escorre-me no pescoço, o teu mistura-se nos meus ombros. ausência absoluta de palavras, respirares pesados, sofridos, amarrados e desatados. um no outro, em nós de pernas. um no outro sem estarmos. dois corpos despojados e ressentidos um do outro. e dou-te as costas, uma e outra vez, até me largar o ódio.

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