Isto não é um texto de amor porque não tem remendos nem saudades furibundas ou amarfanhadas.

Só que tem dias em que faltam coisas porque crescer não é certamente a melhor cena do mundo e eu, que até nasci de rabo, não nasci contudo de nádegas totalmente alinhadas com a lua, estrelas e chakras (ou seja, nasci mais pra esquerda ou pra direita daquele grupo dos 0,000 e qualquer coisa por cento de pessoas alinhadas, segundo últimos dados do INE).


Mas dizia eu que a vida não foi de modas e tem dias em que faltam coisas simples como o seja, ter o coração geograficamente no sítio e, a título de mero exemplo, chegar a casa e estar lá alguém a desarrumar aquilo tudo.

Sim, é verdade que a pessoa quando começa outra vez é a maior do mundo, é só roda no ar e bracinhos levantados pra festa a achar que é tudo muita fixe. É a azáfama total, o apocalipse, o inferno na terra cheio de ibizas e cenas afins, é o amigo do amigo do amigo do zé que já não vês há 20 anos mas que aos 16 até era de confiança, é o anónimo da piadinha (muitaaaaa) fácil, é o anónimo sem piadinha absolutamente nenhuma, é anónimo porreiro que até te faz rir pa carago e o anónimo que te traz arrependimento ainda a caminho. 

No meio disto conheces gente que fica (o que é muita bom, porque a pessoa fica mais cheia de mundo) e gente que vai (o que também é bom porque há mundo que tu não queres no teu). 

Em suma e contabilizando, são magotes (porque prai 5 é uma multidão) de anónimos que já não são e que vão enchendo a tua vida de coisas que nem sabes bem se pediste mas que mal - assim de matar a pessoa - também não faz até porque toda a gente precisa de sair de casa e dar-se ao desfrute dos amigos, das festas e dos sedativos felizes em geral, se não para chegar a casa e dormir em desmaio, pelo menos para induzir uma certa apatia feliz ao dia a dia de quando em vez. 


E o que dizer do sedativo feliz? 

Opá, o sedativo é fixe que dói e há quem até seja capaz de arrancar cabelos e até matar almas por um dos bons! 

É a melhor invenção da terra e do espaço e obriga a pessoa a não ter de lidar com as suas próprias merdices porque de facto é uma perda de tempo e o que está a dar é andar para frente, se não de cabeça erguida, pelo menos o suficiente para não te esbardalhares contra um poste,

O sedativo talvez seja das merdas mais fixes  que alguma vez se inventou, quase ao nível da invenção do primeiro relógio marítimo de alta precisão porque, bem vistas as coisas, quase ninguém precisa de um relógio marítimo (a não ser para a época balnear das bóias) mas toda a gente precisa de uma certa dose de ignorância de si, ou não é?

E é isso que o sedativo faz, a pessoa até nem se dá conta mas é na quase total ignorância que se disfarça de segundas peles mais perigosas e espertas e atrevidas e sonha-se a fazer coisas absolutamente incríveis e espectaculares para as quais já não teria tempo e todo o imaginário se agiganta a pontos perfeitamente fabulosos, todos os cenários são espectaculares porque feitos à medida do que realmente apetece e tudo em ti exalta expectativas pelos poros, tudo é atraente pra caraças, as pessoas são todas muita lindas à primeira apalpadela e a vida é um arco íris de amor espectacular e a cheirar a rebuçados e leite creme. 

O problema é que no mundo das drogas pesadas a pessoa tem ressacas do camandro, dores de cabeça excruciantes seguidas de vomitadeira da grossa. 

Depois vem o alka seltzer, o salva vidas da morte por agonia, e há ali um hiato de tempo em que a pessoa começa a ganhar alguma cor na bochecha e percebe, com alívio, que afinal vai sobreviver a isto, que foi só uma coisita que lhe caiu mal, talvez a bolinha de patê de ervas mastigadas no Tibete por monges que não fazem cocó. 



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